Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2005

A minha namorada - eu

Nestes dias cada vez mais confusos resolvi que alguma coisa tinha de mudar, logo mudei a roupa interior e olhei-me ao espelho. Foi nessa altura que pensei que afinal aquilo porque tanto procurava estava mesmo ali à minha frente. Apaixonei-me por mim. Conversei comigo durante algum tempo e realmente vi que tínhamos muitas coisas em comum, ambos gostamos de sardinhas em lata e saltar freneticamente em cima do tabuleiro da ponte sobre o Tejo.


Resolvemos sair para nos conhecermos melhor e à medida que o tempo passava sentimos uma cumplicidade imensa que nos resolvemos beijar arrebatadoramente. Foi um momento especial, daqueles que nos dão um frio na barriga e fazem-nos pensar que a vida assim vale a pena. Fomos jantar fora a um restaurante muito romântico e o azar destas relações novas é que temos ser sempre nós a pagar a conta, apesar da insistência do outro eu para pagar pelo menos as sobremesas.


Na rua riamos muito alto e parávamos em cada canto para trocarmos beijos, fomos ao cinema, só que desta vez quem pagou foi o outro eu. Eu paguei as pipocas. Eu pessoalmente não gostei muito do filme pois tinha muito drama para o meu gosto, mas o outro eu gostou bastante e até chorou nas partes mais enternecedoras o que eu achei encantador.


Cada vez gostava mais do meu outro eu e só me magoou um pouco quando encontrei uma amiga ao qual apresentei o outro eu. Conversaram bastante e animadamente que confesso que senti alguns ciúmes quando ela convidou o meu outro eu para jantar arroz de pato e me ignorou completamente. Felizmente que o outro eu não esteve pelos ajustes e disse-lhe que só iria se eu fosse o que ela recusou terminantemente pois já me conhecia e não queria ter nada a ver comigo.


Fomos beber um copo a um bar e tive o meu primeiro desapontamento com o meu outro eu. Acho que bebia demasiado e começou aquelas conversas de bêbado de como iríamos amar-nos para sempre, claro que apesar de tudo não gosto de pessoas que bebem demasiado e fiquei um pouco desapontado com o meu outro eu por ele ser assim, mas um defeito também fica bem apesar de eu achar que o meu outro eu devia comer com talheres e não pôr a cara no prato. Mas quando se gosta estas coisas são secundárias.


Partilhamos o taxi à vinda para casa e convidei o meu outro eu para subir, o que este anuiu imediatamente. Comemos uns aperitivos enquanto nos sentávamos no chão a conversar alegremente e a partilhar segredos. Fiquei a saber que o meu outro eu gosta que lhe cocem as solas dos pés com uma escova de arame e beber por um copo vazio. Trocamos experiências e até fiquei com alguns ciúmes por ele me ter contado que tinha uma vida sexual muito mais activa que a minha.


O dia seguinte foi mais complicado, já que ambos acordamos ao mesmo tempo e o meu outro eu foi mais rápido em ir à casa de banho deixando-me furioso, já que só saiu duas horas depois gastando todo o meu champô e deixando as toalhas de banho espalhadas pelo chão. Foi de um extremo egoísmo fazendo o pequeno-almoço apenas para ele, não me deixando leite para comer com as ostras de conserva.


Discutimos imenso pela roupa que cada um devia levar, eu queria sair apenas com uma roupinha casual, mas ele insistiu tanto para levar smoking que não pude deixar de atender ao pedido, desde que pelo menos pudesse levar um gorro com orelhas e amendoins nos bolsos.


De manhã as coisas parecem-nos logo diferentes e comecei a sentir dúvidas se seria capaz de viver com o meu outro eu quando nem sequer concordamos no lugar que nos sentamos no comboio, já que o outro eu fez questão de se sentar à janela quando sabe que eu enjoo na coxia. Tivemos uma discussão acalorada e ele acabou por me empurrar e deixar na estação de Sete Rios quando eu queria ir para Entrecampos.


Foi nesse momento que decidi que não conseguia viver mais com o meu outro eu e despedi-me de mim e fui para os Correios sentar-me na balança das cartas que é dos poucos lugares em que me sinto confortável. Mais uma vez amargurado e triste embrulhei-me em papel e remeti-me para o Brasil.


Tristeza.

publicado por gifted_children às 21:08
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Sábado, 15 de Janeiro de 2005

A minha namorada - a saída

Ainda bem que a época natalícia acabou, com as minhas ansiedades, o meu cabelo cresce com grande rapidez só que no sentido inverso. Senti a falta de ir às compras para comprar uma prenda especial para alguém e tinha alturas em que ia mesmo ao Jumbo nos fins-de-semana para ficar duas horas nas filas para pagar para fingir que sou como toda a gente a acabava sempre por comprar um pente.


Tenho mesmo uma necessidade de me apaixonar e já olho na peixaria para os peixes com outros olhos (apesar de não parecer, continuam a ser os meus). Ainda ontem estava a ver uma garoupa que me fitava com aqueles olhinhos e passei uma boa meia hora a conversar com ela e pensei mesmo em a trazer para casa já que insistentemente me suplicava. Fiquei desolado quando uma senhora baixinha e gorda a agarrou e mandou-a sem modos nenhuns para a balança. Apeteceu-me estrangula-la e morder-lhe o nariz.


Nunca pensei que tivesse de recorrer ao último método que eu pensaria recorrer para arranjar companhia depois do Natal, mas lá teve de ser e coloquei um anúncio na Internet onde dizia e que talvez para alguns possa parecer exagerado “Jovem licenciado, alto, moreno de olhos verdes com boa formação moral e vida estável busca alma gémea para relacionamento e futuro compromisso. Assunto sério”.


Apareceu apenas uma cartita que dizia “Também eu procuro um príncipe encantado que me leve para o altar num cavalo branco às manchas quadriculares com laçarotes.”


Visto isto não podia recusar o convite e trocamos correspondência e de alguma maneira senti-me atraído e ao mesmo tempo fascinado pelas suas mensagens. Combinamos um encontro e apesar das minhas más experiências com encontros não pude deixar de me sentir compelido a ir a este.


- Olá, já estava a pensar que não vinhas…


- Desculpe-me mas parece haver aqui um ligeiro equívoco, eu vim ter com a Flor de Estufa.


- Pois encontraste.


- Tu és a Flor de Estufa?


- Pelos vistos.


- Bem… é que sabes… eu estava à espera de alguém com umas saias e com umas curvas todas jeitosas… percebes?


- Se quiseres posso vestir saias, não seria a primeira vez, além disso também não és propriamente alto, não tens olhos verdes e estás mais branco que um envelope.


- Bom, então agora que estamos esclarecidos vou andando… diverte-te.


- Ainda agora aqui chegaste, bebe pelo menos um copo.


- Não posso, a bebida faz-me crescer pêlos no nariz e garanto que não é uma coisa bonita de se ver.


- Então vem dançar.


- Ainda não sei se reparaste, mas à minha volta têm todos bigode.


- Não sejas tímido, é divertido, vem abanar essa cabeça que vais ver que te vais sentir outro.


- Não sei se possa. Tenho um caso grave de caspa, se me abanar muito isto vai parecer os Alpes Suíços.


- Gosto de ti, dá-me a mão e vamos tomar a pista de dança. Vamos ser um sucesso.


- É disso que eu tenho medo… pensando bem acho que vou tomar um vodka.


- Isso, solta-te, bebe qualquer coisa solta o cabelo e põe os bracinhos no ar.


- Já agora podes largar-me os tornozelos e parar de me rodopiar, já bati nas colunas duas vezes com a cabeça, começo a sentir-me tonto e com naúseas.


- És muito querido, que tal se pusermos uma camisa de alças igual?


- Pode não parecer muito visível, mas este não está a ser propriamente o dia mais feliz da minha vida, se pusesse uma blusa de alças certamente me suicidaria dentro do liquidificador.


- Gostas do meu penteado? Estava farto de me ver, então resolvi dar este toque, que tal?


- Hum, não sei… não estou a ver como tinhas antes, por isso não sei avaliar.


- Vais fazer-me chorar, eu fiz este penteado a pensar que irias gostar e nem uma menção fizeste a ele.


- Bom… está giro, está muito giro… vá lá, não chores, tens de ser um Homem, afinal agora que reparo bem, de facto esse penteado está bastante alternativo, acho mesmo que só te falta o cabelo.


- Achas mesmo?


- Acho, tens assim umas nuances que com as luzes dá assim um toque… diferente.


- Sinto-me tão feliz por ter alguém aqui como tu, sensível, com a mente aberta.


- Pois, mas não sei se reparaste mas tens a tua mão no meu joelho e não é muito confortável. Sou muito sensível ao toque principalmente se a mão for peluda, Acho que causado por um urso de pelúcia que tive que não me largava a perna tentando intimidades, o que só compreendi quando me disseram que era um Chow Chow.


- Hum… a mim pareces-me daqueles que ainda não saíram do armário.


- Agora que falas nisso tenho que confessar que tenho dificuldades em sair do armário principalmente se por alguma razão tranco a porta por fora e fico lá dentro.


- Se der um Tango prometes que danças comigo, adoro o Tango, é tão sensual.


- Meu amigo, eu não dançava contigo nem que passasse o “Dragostea din tei”.


- Vais-me fazer chorar porquê? Tens prazer em ver as pessoas sofrerem … é?


- Por amor de Deus, chorar outra vez? Já tenho a camisola encharcada de tanto choro e já há pessoas a queixarem-se.


- Pensei que não fosses homofóbico.


- A verdade é que as minhas fobias começaram quando tentei secar o cabelo no micro-ondas, a partir desse dia nunca mais fui o mesmo. Não me sinto confortável quando todos olham para mim de modo estranho, acho que vou mesmo embora. Aquele com as tatuagens está a assustar-me.


- Pensei que gostasses de mim… pensei que tivesse arranjado um amigo para toda a vida. Tenho uma ideia. E se fossemos passear na praia, tomar banho nus… hum?


- Rapaz, olha para mim, eu nem na banheira tomo banho nu. Tenho sempre a ideia que alguém vai tocar à porta e eu prefiro estar prevenido, além disso a ultima vez que pisei a areia da praia fiquei com um problema alérgico de pele que me faz crescer umas borbulhas verdes na parte de trás dos joelhos, senão teria o maior prazer.


- A sério que tinhas?


- Estás tolinho?


- Vou chorar.


- Isso chora, chora que faz bem e ajuda a crescer.

publicado por gifted_children às 19:31
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