Segunda-feira, 18 de Outubro de 2004

A minha namorada - diário

Estes últimos tempos foram realmente duríssimos para mim e nada melhor do que escrever um diário para exprimir os meus sentimentos e desabafar com o papel. Se assim o pensei melhor o fiz.


Querido Diário Hoje é o meu primeiro e provavelmente o último dia que te escrevo por isso não vou ser exaustivo nem te cansar muito. Além disso faltam-me as palavras e não tenho afia-lápis.


8h00 - Toca o despertador, tenho a mania que tenho uma vida normal e acordo a horas decentes, vã tentativa, soa-me apenas como um sinal de mudança de posição.


9h00 - Acordo com uma vontade de comer carne estufada com ervilhas, que tento a todo o custo esquecer virando-me com os pés para a parede revirando a língua.


10h00 - Finalmente a hora de levantar, o que faço a muito custo, pensando bem é melhor não, a experiência podia verificar-se traumática e eu ainda estou na minha fase de crescimento intelectual.


11h00 - Veio-me este pensamento tenebroso de agora sim ter de me levantar. Lutei com todas as minhas forças para me manter inerte o mais tempo possível. Mais uma manobra em grande estilo lembrando a graciosidade de um bailarino consegui evitar levantar-me dando uma pirueta e ficando com os pés nas orelhas.


12h00 - Agora sim, tinha chegado a altura em que tive de ceder. Demasiado cedo para almoçar, demasiado tarde para o pequeno-almoço. Enquanto tinha esta dúvida decidi deitar-me em cima da mesa-de-cabeceira.


13h00 - Levantei-me, mas foi tal a violência do esforço que desmaiei indo para debaixo da cama, manobra extremamente difícil tendo em conta que tenho um sommier. Fui tomar banho lembrando-me que se deve ter sempre uma bilha de gás em casa principalmente quando chegam estes dias de maior frio. A minha octogenária vizinha, como sempre, foi muito prestável em me deixar lá tomar banho desde que eu a deixasse lavar-me as costas e pôr o desodorizante. Gente estranha.


14h00 - Estou com muita fome por isso deleito-me a comer uma bela lasagna congelada, mais uma vez me lembrando da utilidade de um micro-ondas enquanto vejo mais uma aventura do Rex, o cão polícia, irmão do Max, o polícia que é cão. Nota para mim: escrever uma série de televisão em que o herói seja um ganso disfarçado de gato persa que resolve todos os casos apenas usando uma calculadora conversora de euros.


15h00 - Saí para tomar café o que é sempre uma boa desculpa para o jornal sair a 50 cêntimos. Assim aproveitei para pôr a leitura dos classificados em dia e dar uma olhadela na necrologia na esperança que algum parente rico que eu não conhecesse me tivesse deixado a sua fortuna e uma semana de férias no Algarve. Nada. Li os anúncios públicos com grande interesse.


16h00 - Foi com um enorme entusiasmo que continuo a seguir as obras do metro. Há pelo menos duas semanas que me delicio a ver os progressos da cofragem de um pilar. Para quem achar isso aborrecido é só pensar na vida da maioria das pessoas e chego à conclusão que não são mais interessantes que isto. Não me dá grande conforto.


17h00 - O cimento foi posto de uma forma sublime, com grande habilidade e cuidado, o pilar ganha cada vez mais forma, não vejo a hora de o ver pronto, como são vários tenho a certeza que tenho distracção para mais umas semanas.


18h00 - Horas do meu desporto favorito. Vou jogar uma partida de bowling onde já sou conhecido por ser o único que me mando de cabeça contra os pinos e continuo a não acertar em nenhum.


19h00 - Onde porra deixei o carro? Tinha a certeza que o tinha deixado no parque -2 ao pé dos pilares verdes, depois de muita procura lembrei-me que tinha trocado o carro por uma salada russa deliciosa. Nota para mim: arranjar outro carro rapidamente.


20h00 - A hora do jantar é sempre a mais difícil e para ter uma excelente refeição nada melhor do que ir a casa da minha ex-ex-namorada fingindo ser o Quim, dando logo um abraço na mãe dela e surrapiado-lhe os óculos para degustar uma bela feijoada de gambas. Apesar de por vezes ter a ideia de que a pobre senhora desconfia que não é ele já que me bate repetidamente na cabeça com uma escova de arame à espera que eu grite.


21h00 - A esta hora dá o meu programa preferido na televisão e tenho-me divertido bastante apesar de ser o único que o vê, já que me parece tão antigo que é do tempo de quando os animais falavam.


22h00 - Preparação cuidada para me deitar, já que este dia foi particularmente cansativo. Tenho uma luta feroz entre a minha almofada ortopédica já que a desgraçada nunca fica da forma que eu gosto. Chateei-me com ela e mais uma vez obriguei-a a dormir aos pés da cama.


23h00 - Adormeço feliz.

publicado por gifted_children às 23:36
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Quarta-feira, 6 de Outubro de 2004

A minha namorada - poesias

Tendo aproveitado este tempo em que estive sentado em cima do fogão para recuperar do choque que tive quando soube toda a verdade sobre a minha vida, fiquei a meditar sobre aquilo que os meus amigos pensam de mim. Acham-me assim um pouco superficial e pouco dado a intelectualidades. Nesta nova fase da minha vida em que tive bastante tempo para ler, ver televisão e jogar mikado cheguei à conclusão que tenho uma grande capacidade de conseguir ler nas entrelinhas de poesias que à partida parecem complicadas. Com o tempo estive a analisar algumas poesias e acho que de facto tenho um jeito inato para interpretar as coisas e que de algum modo vai desmistificar a minha aparente ingenuidade.


EPITÁFIO


Leucis, que almejava a uma grande Paixão


Acaba por não ter mais do que boa vontade em ser prestável.


Aí está uma situação pela qual todos nós passamos. Somos seres que sempre buscam algo de especial, mas no fundo vamos morrer sem ter feito nada de útil a não ser que sejamos torneiros mecânicos ou serralheiros.


PHYLLIDULA


Phyllidula é magra e amorosa,


E assim os deuses concederam-lhe


Que no prazer recebe mais do que pode conceder;


Se ela não achar isto uma coisa bendita,


Então é melhor mudar de religião.


Aqui é óbvio que é o caso de uma mulher cheia de sorte. Tem um parceiro que lhe proporciona momentos de grande prazer e não espera que ela faça o mesmo por ele. A questão de ser magra e amorosa é uma constatação de que nem só as gordas são queridas. Obviamente que neste caso mudar de religião está completamente fora de causa.


OS PADRÕES


Erinna é uma mãe modelo, Os seus filhos nunca descobriram os seus adultérios.


Lalage é também uma mãe modelo, Os seus rebentos são gordos e felizes.


Aqui não é preciso explicar nada, já que salta à vista que uma mãe adúltera pode ter filhos gordos e felizes desde que não seja descoberta, caso contrário as crianças definham e podem começar a usar pijamas com ursos.


CASA DE CHÁ


A rapariga da casa de chá


              Não é tão bonita como era,


O Agosto já a desgastara;


Sim, também ela se aproxima da meia-idade,


E o brilho da juventude que ela espalhava sobre nós


              Quando nos trazia bolos secos


Já não se espalhará mais sobre nós.


Também ela se aproxima da meia-idade.


Aqui constato que se está a falar da mesma pessoa apesar de numa primeira leitura parecer que se fala em duas pessoas diferentes…puro engano. A rapariga que traz o chá é a mesma que espalha os bolos. Neste poema a mensagem também é clara, é um aviso para as pessoas fazerem exercício físico pois assim nunca terão dificuldades em subir escadas e não deixam cair os bolos em cima das pessoas o que em alguns casos pode provocar danos irreparáveis sobre a roupa principalmente se se utiliza padrões escoceses.


OS TRÊS POETAS


Cândida arranjou um novo amante


E três poetas ficaram de luto.


O primeiro escreveu uma longa elegia dedicada a «Cloris»,


A «Cloris casta e fria», a sua «única Cloris».


O segundo escreveu um soneto


             acerca da mutabilidade da mulher,


E o terceiro escreve um epigrama a Cândida.


Clóris diminutivo porque era conhecida a Cândida era uma mulher muito prestável e fazia uns doces de ovos que deixava qualquer um de boca aberta, por isso a facilidade com que arrebatava paixões. Aquele primeiro poeta escreveu uma elegia o que para quem não sabe tem a ver com um poema dedicado a acontecimentos tristes e com a métrica, ou seja escreveu pelo menos dois rolos de cozinha que perfaziam 18 metros. O segundo não era tão esperto o que se prova por ter escrito um soneto sobre a mutabilidade da mulher, mais uma vez explico que o soneto é constituído por catorze versos decassílabos mas devido à complexidade do tema transformou-se em três mil quinhentos e setenta e três versos e ainda não acabou. O terceiro foi mais comedido e escreveu um epigrama, obviamente que por ter um sentido satírico pressupunha o nosso poeta que tivesse bastante graça, mas a mãe dela não gostou e obrigou-o a andar com um balde na cabeça até ao fim da vida.


UM OBJECTO


Esta coisa, que tem nome mas não cerne,


Só conhecimentos há,


              que não afectos.


Entanto, nada lhe perturba os reflexos.


TS’AI CHI’H


As pétalas caem na fonte,


           As folhas de chá cor de laranja,


O seu ocre agarra-se à pedra.


Completamente descabidos de sentido, apesar do meu grande esforço por tentar perceber. Serve sobretudo para decorar e impressionar alguém, mas não deve ser levado demasiado a sério correndo o risco de nos acharem tontos.


EPITÁFIOS


Fu I, que olhava para cima mas vivia em baixo,


Morreu a sonhar – bêbado como um cacho.


E Li Po também se foi toldado,


No mesmo contexto e com o mesmo nexo:


Abraçou a lua – ou o seu reflexo


No Rio Amarelo. Morreu afogado.


Sem qualquer tipo de comentário tal a subtileza da mensagem e todo o esplendor que provoca este poema nas almas mais sensíveis.

publicado por gifted_children às 23:23
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