Terça-feira, 31 de Agosto de 2004

A minha namorada - o pedido

Finalmente tinha chegado o dia que tantas e tantas vezes tinha sonhado. O meu amor tinha voltado da sua viagem e eu esperava por este momento ansiosamente. Como não queria por um minuto que fosse chegar atrasado, fui para o aeroporto à hora de saída do avião dela, mas como não gosto de aeroportos andei à volta da 2º circular durante 16 horas onde fiz vários amigos.


Tinha ensaiado o discurso vezes sem conta. Comprei flores e roubei todas as amostras de cremes e perfumes das revistas femininas para que tudo fosse perfeito. Claro que nestas alturas por mais que se ensaie o discurso quando chegasse a altura tinha a certeza que me iria esquecer de tudo e que apenas seria levado pelas palavras do coração.


Quando esperava pelo desembarque vi pela primeira vez um dos amigos dela a sair e o meu coração bateu mais forte que nunca, ela estava quase a sair, depois veio outro dos amigos e cada vez sentia que estava mais perto de a ver.... depois saiu mais outro... e mais outro... e ainda outro... e outro... mais outro... e por fim veio ela. Estava radiosa vestida numa túnica laranja. Estava com um ar de grande paz interior, olhei-a... sorrimos e corremos para os braços um do outro. Foi um daqueles momentos em que o nosso coração fica encolhido como uma uva que passou a passa.


- Amor, voltaste... que saudades que tinha tuas.


- Eu também, que bom voltar a ver-te.


- Sentiste saudades minhas.


- Muitas.


- Muitas, muitas… ou muitas muitas, muitas?!


- Muitas, muitas, muitas.


- Muitas, quanto?


- Bastantes.


- De 0 a 100?


- 1000.


- Então foram mesmo muitas!


- Muitas.


- Muitas, muitas??!


- Ok, chega… estive a meditar e a tomar consciência do meu interior, mas a paciência tem limites.


- É que estive a pensar e tenho uma coisa muito importante para te dizer.


- Eu também.


- Primeiro eu. Lembras-te quando eu te falava das minhas inseguranças. E sabes que não tem nada a ver com o ter posto rodas de bicicleta no carro por não ter dinheiro para os pneus?!


 - Sim.


- Passou-me completamente, estou disposto a dar um novo rumo à minha vida e quero casar-me contigo. Amo-te muito e acho que fomos feitos um para o outro apesar de seres significativamente mais alta que eu e os meus ovos estrelados saírem sempre sem gema.


- Era sobre isso que também te queria falar.


- Quer dizer que também estás disposta a casar comigo?


- Não… sabes… aaaaa… apaixonei-me por um chinês… é uma excelente pessoa, está lá em situação de ajuda humanitária e assim que o vi soube logo que era o homem da minha vida e apesar de termos dificuldades em comunicar por mímica por ele ter perdido os dedos a escrever à máquina entendemo-nos maravilhosamente.


- Diz-me uma coisa, aquele avião está a levantar voo?


- Não.


- Ah bom! Então sou eu que estou a desmaiar.


- Não fiques assim.


- Não fico assim? E onde queres que fique?


- Podes ficar aqui, ou vir comigo, mas aviso já que não alinho nessas coisas a três. Eu vou voltar para o Nepal, aquilo é muito bom, tudo muito rudimentar e genuíno, fora deste ritmo infernal de Lisboa e além disso adoraram o meu arroz salteado com pevides.


- Tens a certeza que não estiveste a subir o Everest e estás com o cérebro pouco oxigenado?


- Não, agora tenho a certeza que é isto que quero fazer o resto da vida, tem tanta gente para ajudar… andar de Iaque, subir pelas montanhas cobertas de neve ir ao lindo reino de Shangri-La onde se pode meditar dias sem parar.


- Isso a mim parece-me meio aborrecido.


- Não é meu querido, descobri finalmente a minha essência, o objectivo último da minha vida, enfim acho que respondi ao chamamento de Deus e acho que é por isso que Ele me pôs no mundo.


- Já que respondeste ao chamamento Dele, da próxima vez que estiveres com ele podes-lhe perguntar o que ando eu aqui a fazer, para onde vou, o que me espera e já agora como é que se batem claras em castela?


- Não fiques assim. Fica feliz por mim por me ter descoberto e fazer aquilo com que sempre sonhei.


- Suponho que sim… mas só se os parvos dos teus amigos pararem de rir entre-dentes.


- Lá estás tu a implicar com eles.


- Quer dizer que o teu novo namorado chinês não implica. Deve se porque não os conhece. Quando isso acontecer vai corrê-los a pontapé.


- Não pode, perdeu os pés quando por engano confundiu o triturador de lixo com um massajador.


- Que dizer que entre nós não há mais nada a fazer ou conversar, está na hora de acabar, adeus tristeza até depois, chamo-te triste por sentir que entre os dois…


- Querido, estás a cantar o Fernando Tordo e as pessoas começam a atirar moedas.


- Desculpa, entusiasmei-me.


- Bem… está na hora de ir embora, vim buscar a pasta de dentes pois não imaginas a dificuldade que é em encontrar lá aquela que gosto. Amanhã vamos todos outra vez, espero que não fiques triste e depois eu mando-te um postal.


- Obrigado, vou adorar, adeus. Agora que já não namoramos posso bater nos teus amigos e metê-los numa mala de mão?


- Claro que podes, dá-me a beijoca dos 3 segundos.


- Está bem, adeus.


- Adeus Amor.

publicado por gifted_children às 23:55
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Quinta-feira, 26 de Agosto de 2004

A minha namorada - a espera

A minha querida namorada foi passar férias com os amigos para o Nepal em busca de um refúgio espiritual, o que para mim é uma absoluta perca de tempo, não que não ache que as pessoas precisem mais do que as coisas terrenas e tenham necessidades mais profundas, mas acho que as pessoas só deviam partir para esse patamar quando conseguissem abrir à primeira uma garrafa de Coca-Cola ou partir uma noz com os dentes.


Levado pelo interesse da minha namorada pela espiritualidade também eu aproveitei para começar a praticar Yoga e fazer uns exercícios de relaxamento respiratórios. Ao princípio custou-me um pouco já que em vez de relaxar começava a hiper-ventilar e desmaiava de 5 em 5 minutos. Depois tentei as asanas e demorei dois dias a voltar a uma posição vertical o que foi muito mau já que ia ao banco pedir um empréstimo para comprar umas peúgas em 2ª mão com as pernas enroladas nas orelhas, o que acho que não causou muito boa impressão. Por fim tentei a meditação profunda, que exige um elevado grau de concentração e contemplação. Realmente estava quase a conseguir me abstrair de tudo e elevar o meu espírito, mas só me vinha ao pensamento imagens das jogadoras de volley-ball de praia e de puré de batata com filetes de peixe.


Tenho aproveitado o meu tempo a ver os Jogos Olímpicos e sinceramente tenho-me apaixonado por algumas modalidades de grande interesse e que além de terem uma beleza estética extraordinária são bastante úteis. Por isso tenho acompanhado com especial atenção o halterofilismo feminino. Poderão até dizer que não são as mulheres mais bonitas do mundo (é tudo uma questão de opinião), mas devem ser extremamente úteis para quem anda sempre com a casa às costas.


Imbuído pelo espírito olímpico também eu comecei a fazer desporto. Como sempre me disseram que a natação é o desporto mais completo comecei por aí. Achei só um pouco parvo depois de ter posto aquela toca ridícula me dizerem que era preciso saber nadar… pois, devia ter calculado. Puseram-me no tanque de aprendizagem onde a água me dava pelo joelho com as crianças dos 3 aos 6 anos e tenho de dizer que me saí muito bem. Ganhei todas as corridas, apesar de algumas daquelas tristes crianças se queixarem que eu nadava com as mãos no chão e que lhes puxava as pernas quando me ultrapassavam … as crianças de hoje começam logo por ser umas queixinhas logo de tão novas… invejosas. As minhas experiências atléticas ficaram por aqui apesar de ainda ter ido tentar bater o meu recorde de cambalhotas consecutivas na pista de atletismo da qual fui expulso de forma muito pouco cordial.


No fundo tudo tenho feito para me manter ocupado e não sentir saudades da minha namorada. Estou desejando que venha o mais depressa possível pois pretendo pedi-la em casamento. Pois acredito que já amadureci o suficiente e já estou pronto para assumir um compromisso desta grandeza, sendo assim, quando chegar vai ser a primeira coisa que vou fazer a seguir a lavar a roupa interior com sabão azul e branco.


Já me estou a ver todo luzidio à espera dela no altar e trocar-mos juras de amor eterno… vai ser lindo.

publicado por gifted_children às 23:53
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Domingo, 15 de Agosto de 2004

A minha namorada - o almoço

Acho que levei longe demais esta minha ideia de passar mais tempo com a minha nova namorada. Ficou tão impressionada que eu quisesse passar mais tempo com ela que achou que estava na altura de conhecer os pais, por isso convidou-me para ir a casa deles na Herdade da Aroeira e almoçar no restaurante.


Eu por mim, tudo bem, sempre é uma refeição de borla pois não tenho dinheiro para estas andanças e se tiver de pagar tenho um método verdadeiramente infalível para escapar. Vou à casa de banho e meto-me na sanita e puxo o autoclismo e só me ponho em pé quando chego à ETAR, este método é particularmente perigoso se não tivermos lavado convenientemente os dentes.


Cheguei ao Club house e reconheci logo a mãe dela, não que tenha um sentido muito apurado para estas coisas, mas já tinha visto fotos.


- Boa Tarde… “mãe”. Trago-lhe aqui umas flores de plástico, pois a sua filha disse-me que a sua mãe tinha falecido há pouco tempo e assim escusa de perder tempo indo ao cemitério tantas vezes.


-…obrigado, és muito gentil. Eles ainda demoram um bocadinho, queres uma entrada de Queijo de Cabra com Courgette, Vinagrete e Tomate… está uma delícia.


- Bom… eu prefiro mesmo azeitonas pretas e pickles mas é só isso que têm … pode ser.


- Já te disseram que tens uns lindos olhos…


- A sério??!


- Nunca te disseram?


- Já, mas nessa altura queriam dinheiro emprestado.


- Agora percebo porque a minha filha namora contigo, és um belo rapaz. Posso apalpar-te os músculos?


- Claro, mas tenho de lhe dizer que consigo apagar uma vela abanando apenas as orelhas.


- Impressionante… tens umas coxas rijas… aposto que fazes exercício.


- Todas as vésperas de Natal corro pelo menos 100 metros.


- Anda mais para ao pé de mim, quero dizer-te um segredo.


- Se calhar é melhor não, não sou muito bom a guardar segredos, a última pessoa que me contou um segredo nesta altura cumpre 16 anos de prisão.


- Pareces tão tenso, anda cá que te dou uma massagem nos ombros para relaxares.


- Não me parece boa ideia, fizeram-me isso uma vez que relaxei tanto que só acordei 3 meses depois perdendo o mundial de patinagem artística… por acaso o seu marido não estará a chegar?


- Não te preocupes com isso, foi jogar golfe, e desde que teve um acidente sentando-se em cima do taco nº3 joga sempre a bola a pontapé.


- Pois… isto aqui é muito bonito, tudo verde, só se ouvem os passarinhos a cantar, é muito agradável.


- Sabes que existem aqui 13 lagos e já nadei nua em todos eles.


 - Deve ter sido um dia extenuante…


- Tens de um dia vir experimentar comigo.


- Diga-me… isto é uma brincadeira e daqui a bocado vão todos aparecer e vamos rir juntos, não é? Porque se assim não for vou chorar.


- Bebe um pouco de vinho, respira fundo e descontrai-te.


- Só se me der à boca… não vê como estou a tremer? Ainda enfio o copo pelo nariz. Não será melhor eu ir procurar a sua filha? Com 18 buracos neste campo se calhar já caiu num e não se consegue levantar…


- Tão querido… posso-te mordiscar as orelhas?


- Credo… está bem, mas só um bocadinho



- Isso é bom.


- E sei fazer muitas outras coisas.


- Sabe fazer um nó de gravata sem revirar os olhos?


- Não, mas sei fazer o Mosteiro dos Jerónimos em barro moldando-o apenas com os pés enquanto como acepipes.


- Pois...

publicado por gifted_children às 02:28
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Domingo, 8 de Agosto de 2004

A minha namorada - jantar de despedida?

Depois de muita reflexão e de muitos pensamentos que me povoaram os cinco minutos em que consigo pensar na mesma coisa, concluí que não queria mais namorar com a minha nova namorada. Não por que não goste dela, porque gosto, mas há determinadas coisas que um homem tem direito a exigir da pessoa que gosta. Que passe tempo com ele, que não traga sempre os amigos atrás, e que lhe ofereça umas pantufas em forma de urso. Ora nenhuma destas condições a minha nova namorada preencheu.


Eu sei que ela é uma pessoa muito ocupada, que se preocupa com os amigos e com as pessoas carenciadas e que gosta de fazer tricot enquanto anda de bicicleta… mas e eu? Onde fico nesta história? Serei eu apenas alguém que ela precisa para uns momentos de prazer? (antes fosse, mas nem essa sorte tenho).


A parte mais complicada é arranjar uma maneira de lhe dizer que tudo entre nós está terminado. Nunca tive essa experiência pois normalmente são sempre elas que me mandam procurar os confins do mundo e tentar lá permanecer. Mas sendo a minha primeira vez estava bastante entusiasmado com a coisa. Telefonei-lhe e pedi-lhe para vir ter comigo ao restaurante. Escolhi um caro pois estas situações não acontecem todos os dias e são sempre momentos especiais que nos devemos esmerar ao máximo.


- Olá querida ainda bem que vieste…mas acho que tinha deixado bem claro que esta era uma noite para nós e que não trouxesses os teus amigos. Principalmente aquele gordo da camisola aos quadrados que tem a mania de me roubar a salada para pôr nas orelhas.


- Deixa-os estar, eles ficam noutra mesa e não incomodam.


- Ficas a saber se eles abrirem a boca mando-lhes com trufas.


- Mas que acontecimento especial é este? Viemos a este restaurante, estás todo bonito, que se passa?


- Nada de especial… mas diz-me… o que pensas da nossa relação?


- Acho que é uma relação baseada no respeito mútuo, em muito amor e amizade e que apesar das nossas diferenças tenho a certeza que é contigo que me quero casar, ter filhos e jogar Playstation.


Enquanto tentava digerir estas tão doces palavras veio o gordo da camisola aos quadrados que aproveitando o meu momento de distracção roubou-me a salada que tanto trabalho me tinha dado a temperar.


- Estás ver? Nunca temos tempo só para nós, para estarmos os dois juntos.


- Mas nós agora estamos sós…


- Sim, mas os teus amigos estão na outra mesa a trocar segredinhos, a soltar risotas e a olhar para mim.


- Deve ser por teres um camarão no nariz.


- A verdade é que não gosto deles, quer dizer… até gosto, mas começo a ter pesadelos frequentes com eles… ontem sonhei que dois deles me tinham vendido em leasing.


- Mas tens de compreender… são meus amigos, e enquanto os namorados vão e vêm os amigos ficam para sempre.


- Pois já reparei, mas esses ficam literalmente para sempre, parecem doenças venéreas…


- Mas são meus amigos e gosto deles, se os conheceres melhor vais ver que vais gostar tanto deles como eu. O que seria da minha vida sem os meus amigos. São aquelas pessoas com quem sempre podemos contar.


- Pois, eu só daqui conto oito, fora aqueles dois que mergulharam no tanque das lagostas.


- No fundo estás a querer dizer que não estás satisfeito com a nossa relação, é isso?


- Qual relação? Trabalhas o dia todo, à noite e fins-de-semana andas com esses marmelos de um lado para o outro a fazer caridade, nunca tens um tempinho só para nós os dois e sinto-me carente, triste e desamparado.


- Tinha a ideia que gostavas de andar connosco, tu mesmo disseste que estavas a adorar fazer pessoas felizes e mesmo quando aquele toxicodependente te vomitou em cima tu sorriste para mim.


- Pois… acho que não percebeste a ironia do sorriso…


- Vamos ultrapassar isso, eu prometo que vamos passar mais tempo juntos e tenta ignorar os meus amigos.


- Como é que eu os posso ignorar quando me estão a roubar o ensopado de enguias e a deitá-las ao rio…


- Tu sabes como eles são defensores dos animais, estão apenas a mandá-las para o seu habitat natural.


- Estás a ver… estás sempre a defende-los!


- Desculpa… e então como ficamos? Ainda somos namorados?


 Suspirei fundo e todo o meu corpinho tremeu perante aqueles olhinhos de cachorro abandonado. No fundo, sou mesmo um ser sensível e gosto mesmo dela. Que se pode fazer quando o amor nos transforma em alforrecas…


- Claro que sim… deixa-me beijar-te.


- Claro que sim meu amor… tens 1 minuto.

publicado por gifted_children às 01:42
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