Sexta-feira, 30 de Julho de 2004

A minha namorada - dia de praia

Com estes belos dias de calor nada melhor que uma praiazinha para descansar este corpo dorido de tanto fazer bem em prol dos outros. Claro que a ideia da minha querida namorada trazer os amigos todos não me agradou, seria bem melhor estarmos apenas os dois, mas ela como boa pessoa que é, não quis deixar de convidar aquelas figuras.


Tenho a impressão que alguns não vinham à praia desde pelo menos 1977 pois estavam mais branquinhos que uma posta de pescada da Iglo.


Toda esta minha teoria se confirmou quando um deles se afogou com a água pelo joelho, mais tarde tivemos de o comprar quando era vendido por 5 euros pelos pescadores da Costa. Esta experiência não foi muito boa para ele que passou o resto do dia melancólico a abrir buracos na areia seca a ver se encontrava água…parvo.


Claro que é sempre aborrecido quando se quer desfrutar um bocadinho de praia e os idiotas dos amigos dela passarem o dia a apanhar o lixo, as beatas e os papéis de gelado, com o que é que as crianças agora vão brincar?


 Também foi na praia que eu e a minha nova namorada tivemos a nossa primeira discussão, o que é sempre bom pois não há nada melhor que uma zanga de namorados partindo do princípio que não vão utilizar objectos afiados.


- Para onde estás a olhar?


- Para o horizonte a pensar como sou feliz por estares aqui comigo.


- Só se tiveres olhos na nuca pois estás de costas para o mar.


- Lá estás tu a ligar aos pormenores.


- Pensas que não vi que estavas a olhar para aquela de biquini vermelho a fazer topless.


- Está alguém de biquini vermelho a fazer topless… onde? (esperando eu que ela engolisse esta ingenuidade)


- Acho de muito mau gosto olhares para outras mulheres quando estás comigo. Todos concordaram com ela e bateram palmas olhando-me com reprovação, a que se juntou um casal de velhotes que me tirou as uvas.


- Sabes querida… eu estava a olhar só para ver como tu és perfeita comparada com as outras. Já viste a quantidade de celulite que a mulher tem? Era melhor estar tapada com um cobertor para não afligir olhos tão esteticamente apurados como os meus.


Apesar das minhas tentativas de sair airoso desta discussão foi pior a emenda, pois tive de ouvir o discurso sobre a superficialidade da minha conversa e tenho a certeza que houve mesmo duas parvas que me atiram areia para os olhos, apesar de não conseguir provar já que disfarçadamente começaram a assobiar para o ar e esconderam as mãos, mas tenho a certeza que foram elas. Por castigo devia crescer-lhes as orelhas. Feias…


- Isso quer dizer que eras incapaz de namorar comigo se eu tivesse celulite, estrias e pele de galinha?


- Bem, desde que não tivesses penas, senão era realmente esquisito…


- Se apertares a minha coxa vais ver que tenho aqui vais ver que tenho celulite e um bocadinho de gordura localizada.


- Ora, nem se nota, mas a ti tudo te fica bem. Não queres por acaso um geladinho ou uma bolinha de berlin? Estou a ficar com fominha…


- Estás doido!!! Sabes do que tenho de abdicar para manter o meu corpinho assim? Queres que eu por acaso fique gorda e não caiba no fato de banho?


- Mas querida, tu mesmo disseste que não ligavas a essas coisas…


Neste momento todos se voltaram de novo para mim como se eu fosse um assassino em série puxando-me os pêlos das pernas com uma pinça e o casal de velhotes começou a meter-me areia no calções… Tive de lhes bater com o chapéu-de-sol.


- Não gostas mesmo de mim, pois não?


- Claro que gosto, mas os teus amigos já me estão a irritar, será que têm de vir sempre atrás de ti?


Claro que se juntaram todos e tentaram afogar-me deitando-me um balde de água pela cabeça, os velhotes não se ficaram atrás e puxaram-me as pernas para dentro de uma poça e começaram a saltar freneticamente em cima de mim. Não me contive mais, enchi-me de coragem e fugi para o colo da minha namorada.


Há alturas em que penso que o melhor mesmo era estar só.

publicado por gifted_children às 20:08
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Domingo, 25 de Julho de 2004

PAUSA

Bem, aproveitei para fazer uma pausa, já que ali em baixo o meu contador já contabiliza mais de 5000 leituras da minha página, isso vale o que vale mas é sempre um bom pretexto para vos agradecer, além disso está um calor que não se pode, portanto não me apetece escrever muito.


Portanto não poderia deixar de agradecer a todas as poucas pessoas que me têm visitado. Aqueles que ao longo destes meses têm acompanhado a história do princípio e que me incentivaram a continuar, aos outros que já apanharam a coisa a meio, e principalmente aqueles que sempre se dão ao trabalho de comentar.


Um agradecimento especial para quem nunca leu, não faz tensões de ler e nem sabe que existe.


De qualquer maneira desejo-vos as maiores felicidades com os vossos Blogs e para as vossas vidinhas. Sejam felizes.

publicado por gifted_children às 22:36
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Terça-feira, 20 de Julho de 2004

A minha namorada - a ajuda

A verdade é que me sinto feliz. Têm sido dias maravilhosos onde por vezes penso que vou rebentar de tanta felicidade. Esta coisa de ajudar os outros deu-me uma perspectiva de vida completamente diferente. Têm sido muitas as noites que passo com a minha nova namorada que por entre beijos e sandes de queijo temo-nos divertido à grande a ajudar o próximo. Quer dizer, eu divirto-me, acho que ela leva as coisas mais a sério. Já esqueci o episódio dos sapatos, mas pelo sim pelo não trago sempre uns chinelos de praia.


Apesar de toda a gente ao princípio estar um pouco renitente com a minha presença, a verdade é que aos pouco tenho ganho a consideração de todos e já me deixam conduzir a carrinha, desde que prometa não fugir para casa nem comer o pudin flan das sobremesas.


Desta vez tive a tarefa mais gratificante de todas. Ajudar jovens mães solteiras, o que era uma desafio para mim, mas que o aceitei de bom grado em troca de dois sabonetes em forma de concha. Claro que tive de me preparar para falar como estes jovens de hoje em dia e encarnar o espírito da coisa.


- Yoo, bacana, como é? Tásse bem?!


- Jovem... primeiro fala como gente, depois só vim cá porque me disseram que me trocavam as fraldas ao bebé, me davam toalhitas grátis e um pacote de sugus.


- Epah... tás a ver, não sei nada dessa cena chavala.


- Vais continuar a falar assim?


- Desculpa, é que estive a ver o Curto Circuito para ficar assim com um espírito mais jovem e agora já estava a entrar na onda.


- E como é? Vais trocar a fralda ou não?


- Sabes... primeiro ele está com uma cara demasiado feliz para quem está sujo, depois a última vez que peguei num bebé deixei-o cair do 3º andar e ainda hoje passados tantos anos acho que ainda me odeia.


- Estou a ver, e as toalhitas?


- Bem… a mim ninguém me falou das toalhitas, mas tenho aqui uns lenços de papel com pouco uso.


- Não, deixa estar obrigado. Mas afinal o que estás aqui a fazer?


- Bem, a ideia é eu ajudar-te. É que sabes, sou um excelente ouvinte, quem consegue ouvir o Fernando Rocha consegue ouvir de tudo. Por isso comigo podes desabafar, contar-me os teus problemas, as tuas angústias, tristezas. Tudo aquilo por que tens passado e não precisas de sofrer sozinha, tens aqui um amigo pronto para te ajudar e que te dá um ombro para chorares se quiseres.


- Mas pareces-me um pouco triste…


- Nota-se muito?


- Um bocadinho, o que é que te apoquenta?


- Sem ser o Francisco Louçã nunca se calar, sinceramente não sei, tenho uma nova namorada e estou muito feliz, mas ao mesmo tempo esta história de ajudar os outros… acho que ainda não consegui assimilar inteiramente, às vezes acho que preferia estar em casa e fazer biscoitos em forma de texugo.


- Se é isso que gostas porque não vais fazer?


- Tenho receio de desapontar a minha namorada.


- Mas não achas que se ela gostar mesmo de ti vai compreender as tuas escolhas.


- Bem… começámos há pouco tempo e ainda estou no tempo das cedências.


- Mas assim nunca mais afirmas a tua individualidade enquanto pessoa, tens de demonstrar a tua força interior para te impores e vais ver que ela te vai respeitar mais.


- Então o que achas que devo fazer?


- Acho que deves ser tu próprio, com todos os defeitos e virtudes que presumo que devas ter alguma. Vais gostar mais de ti e dos outros e ser melhor ser humano e se te apetecer usar roupa interior feminina deves fazê-lo.


- Ei, quem te contou?


- ??!! era é só um exemplo…


- Ah, ok.


- Mas tenho uma sensação que não é tudo e tens mais alguma coisa para deitar cá para fora.


- Sim, mas tenho uma boa desculpa, comi uma sopa de grão e nabo num desses restaurantes de 3ª .


- Falava de coisas mais profundas.


- A verdade é que não me conformo por a minha ex-namorada me ter trocado por outro. Confesso que por vezes quando chego a casa sozinho sinto vontade de chorar mas tenho a certeza que é por causa da programação da televisão.


- Anda cá seu palerma, não tenhas vergonha e chora à vontade no meu ombro.


- Obrigado.

publicado por gifted_children às 22:16
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Terça-feira, 13 de Julho de 2004

A minha namorada - tem noites...

Ah... como é bom um novo amor, tudo é novo, não há discussões, começar do zero e ainda por cima teve a gentileza de cobrir a minha dívida no banco e carregou-me o telemóvel, que mais um homem pode sonhar? Quer dizer às vezes sonho que sou uma mosca mas acabo sempre esborrachado contra o vidro por um jornal, logo esse sonho não conta. Sem ser aquela mania que tem de cronometrar os beijos eu diria que estaria tudo na perfeição.


Descobrimos montes de coisas em comum, como o facto de ambos gostarmos de avestruzes e comer melancia sem casca, acho que é um óbvio sinal que nascemos um para o outro.


Claro que esta coisa de ajudar os outros tem muito que se lhe diga, tenho saído à noite com um monte de gente com grande alma e bondade a distribuir alimentos por entre os sem-abrigo, há sempre uma ou outra situação que me fazem descrer da minha capacidade de ser altruísta, mas é um facto que estar a olhar para aquelas pessoas que esperam por nós para lhe trazermos a refeição é realmente gratificante.


- Tome, aqui está a sua sopa quente e uma sandes.


- Não tem por acaso umas costelas de novilho e para acompanhar um Château Pétrus.


- Hum… penso que não, mas temos aqui uns ovos escalfados e um pacote de leite magro.


- Se é só isso que tem venha lá essa coisa, espero que não me faça mal ao estômago. Já agora que nº calça?


- 44… porquê?


- Gosto dos teus sapatos.


- Ok… são giros mesmo, tome lá esta porcaria e…


- Quero os teus sapatos.


- Deve estar a brincar, os meus Miguel Vieira?!


- Dá-mos já.


- A que propósito lhe daria os meus sapatos…


- Não tenho casa para morar, o meu melhor amigo é um pombo, apesar de achar que ele fala comigo por interesse para eu lhe servir de casa-de-banho. Sou pobre, estou esfomeado e além disso estou descalço.


- E??!!


- Onde raio está essa generosidade? Só peço a porcaria de uns sapatos e até parece que estou a pedir a roupa interior.


- Já que fala nisso não quer antes a minha roupa interior, aposto que lhe deve dar mais jeito, não tarda está aí o Inverno e depois pode-lhe fazer falta.


- E eu lá era capaz de vestir roupa interior de outra pessoa, passa para cá os sapatinhos.


- Eu andei nos escuteiros, se quiser ensino-lhe a fazer uns chinelos com cordas e papelão… estes sapatos são muito quentes e vai ter calor de certeza, vai suar, depois apanha fungos e quando der por si tem uma infecção gigantesca e crescem-lhe borbulhas na testa.


Neste momento olhei para a minha nova namorada procurando compreensão e que ela de alguma maneira pusesse cobro a esta história de uma vez por todas, não ía dar os meus sapatos a ninguém. Senti o olhar reprovador de todos os idiotas dos amigos dela para comigo e um deles começou a balbuciar umas palavras que pensava que os meus queridos ouvidos nunca iriam ouvir.


- Vá lá dá-lhe os sapatos.


- Porque é que não dás os teus?


- Porque ele quer é os teus, se quisesse os meus eu dava-lhe, mas calço o 36 e não lhe deve dar jeito andar de tacão de agulha.


- Tens uns sapatos de tacão de agulha?!!


- Sim, a seguir tenho um espectáculo e assim aproveito e vou já meio despachado.


- Está bem, mesmo assim acho que devia ser aquele parvo que está ali escondido atrás do retrovisor a dar-lhe os sapatos.


- Ei, caso ainda não tenhas reparado estou descalço.


- E o que é isso que tens nas orelhas?


- São os meus protectores de ruído.


- Nike??!?!!


- Pois…pronto, tu aí dá-me cá os teus sapatos que está aqui um senhor que precisa de calçado.


O pobre do rapaz começa a descalçar-se lentamente que quase me fez pena ter-lhe gritado para ele tirar os sapatos. De repente agarra nos sapatos e desata a correr Av. da Liberdade fora com os sapatos na mão a gritar “Viva o Rei, Viva o Rei…”. Neste momento a minha querida nova namorada veio ao pé de mim. Senti que finalmente tinha alguém do meu lado para me proteger, beijou-me na face (2 segundos) e virando-se para todos disse: “Vamos, todos juntos conseguimos tirar-lhe os sapatos!”

publicado por gifted_children às 23:44
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Sexta-feira, 9 de Julho de 2004

A minha namorada - telefonei-lhe4

(continuação)


Foi com imensa alegria que fui tomar uma banhoca, como não tinha gel utilizei o Calgonit Power Ball que tirou todas as manchas deste corpinho e deixando-o mais brilhante que nunca. Fui depressa vestir a minha roupa das sextas-feiras à noite e fui-me.


Como não costumo ter muito dinheiro tenho uma técnica infalível para andar de autocarro que consiste em me pôr à frente e esperar ser atropelado, algumas vezes resulta e os motoristas deixam-me entrar quando os ameaço processar, outras vezes vou colado no pára-brisas. Não recomendo esta técnica no Metro, pois realmente podemo-nos magoar a sério.


Não sei porquê mas há uma sensação que me persegue há algum tempo é que devia ter ficado com uma coisa mais concreta, como o número do telemóvel, ou dizer-lhe para saltar à corda só com um pé. Cheguei em frente àquela coisa e ganhou ainda mais força a ideia que tinha que talvez tivesse sido boa ideia combinar um sítio certo, aquilo que combinamos era tão vago como os lugares no parque de estacionamento.


Com tudo isto sinto que cresci, antigamente o meu primeiro pensamento seria pensar se de alguma maneira ela era muito gira, inteligente, com sentido de humor e não demorasse mais de 30 segundos em cada loja. Desta vez nada disto me passou pela cabeça, estou apenas interessado em ter alguém com quem possa conversar (que ideia assustadora), apesar de agora estar bastante apreensivo no caso de ela ter mais 1,85m e pêlos nas costas.


Este pensamento ocorreu-me enquanto desenfreadamente a procurava correndo que nem um louco de porta em porta até que por fim a vi. Aquela t-shirt branca e as calças de ganga não enganavam apesar dos óculos não me parecerem muito escuros, devia ser um truque para ver se estava atento, há mulheres que gostam que estejamos sempre atentos aos detalhes.


Tenho de confessar que à primeira vista foi melhor do que eu podia imaginar, se eu tivesse imaginado.


Fui-me aproximando e os olhinhos dela iam sorrindo a cada passo. Penteei o cabelo com a minha nova escova eléctrica e falei-lhe.


- És tu?


- Sim


- És mesmo tu?


- Sim… sou mesmo eu.


- De verdade?


- Quando saí de manhã de casa era eu, mas agora que me questionas dessa maneira já não tenho tanta certeza.


- De repente fiquei com uma vontade de te beijar e comer batatas fritas… posso?


- O quê?


- Beijar-te.


- Onde?


- Na boca.


- Claro que podes… e quanto tempo me vais beijar?


- Hum… 5 minutos!!


- É muito… 30 segundos a partir de agora.




- Foi o melhor beijo da minha vida.


- Foi bom mesmo. Agora vamos que ainda tenho algumas coisas para fazer.


- A sério, tens de fazer o quê?


- Bem, eu costumo fazer trabalho de voluntariado com pessoas mais carenciadas. Se quiseres e não te importares podes vir comigo.


- Claro que vou, acho que nasci mesmo para ajudar os outros, tenho uma costela de Madre Teresa, claro que não literalmente, pois isso seria estranhíssimo. E onde vamos!?


- É na zona J de Chelas.


- Credo! Não quero ser assaltado.


- Não sejas preconceituoso.


- Não é preconceito, sou cobarde por natureza. Normalmente na apanha da azeitona quando elas começam a cair sou sempre o primeiro a fugir.


- Vivemos todos juntos numa comunidade e os que têm o privilégio de terem uma boa vida não podem esquecer todos aqueles que sofrem e passam necessidades.


- Mas…


- Além disso é libertador saber que ajudamos tantas pessoas a terem um bocadinho de calor, amizade e bem-estar. Faz-nos sentir bem connosco próprios e o mundo.


- Mas estamos tão longe do Natal…


- Não queres ver a cara alegre e receber um abraço de alguém que ajudaste? Não é recompensador?


- Bem… a cara alegre ainda vá lá, mas um abraço parece-me deveras exagerado.


- Quanto dinheiro tens?


- Tenho esta notinha amarrotada de 10 euros para comermos.


- E não te irias sentir melhor se em vez de tu comeres usássemos esse dinheiro para dar a quem realmente precisa, que com isso podemos dar uma refeição condigna a uma família.


- Não… é que de facto estou com muita fome, e já consigo sentir o saborzinho de uma sandes de atum com cebola.


- Anda… vais ver que te vais sentir melhor depois de veres toda aquela gente feliz.


- Duvido (bolas, bolas, bolas, bolas)

publicado por gifted_children às 22:34
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Segunda-feira, 5 de Julho de 2004

A minha namorada - telefonei-lhe3

(continuação)


Foi de facto maravilhoso quando atendi o telefone e senti toda uma força (eu sei que esta da força já deu o que tinha a dar) de toda a gente naqueles gabinetes circunspectos que estavam em grande expectativa para saber o que iria sair desta garganta de rouxinol.


Pediram-me várias canções, as quais as cantei com grande afã. Houve uma altura em que disse que não cantaria mais, e todos ficaram tristes e cabisbaixos, mas depois fiz uma imitação do Marcel Marceau que os deixou de novo extasiados e aplaudiram-me em apoteose, foi bonito, mas o meu interesse era falar com aquela rapariga.


- De facto és um artista... cantas tão bem que até tenho a penugem na barriga arrepiada.


- Ora, ora, ora...acho que foste tu que me inspiraste, normalmente canto tão bem como o Melão, mas depois de ouvir a tua doce voz, senti-me como se tivesse encarnado o Frank Sinatra.


- Se houvesse aqui alguém que me cantasse assim ao ouvido era capaz de fazer cobranças o dia inteiro.


- E isso não seria irritante?


- O quê?


- Bem... estares a trabalhar e estares a ouvir alguém cantar ao ouvido, como é que ouvirias a outra pessoa? Se fosse comigo e alguém me cantasse ao ouvido batia-lhe com um clip.


- Tens razão.


- Bom... pensaste no nosso assuntuzinho?


- Do dinheiro?!, Ah, claro, é que tens a conta descoberto já lá vai para mais de um mês e...


- Pára, pára, pára... não falemos de coisas insignificantes, o que é o dinheiro ao pé do amor.


- Pois de facto tens razão, mas garanto-te que ninguém vem ao banco e diz “Amo-te muito, e além disso tens uma personalidade extraordinária” e as contas ficam pagas.


- Então e quando é que podemos ir sair para beber um café, jantar ou qualquer coisa do género.


- Pois, por aquilo que vejo quem paga a conta sou eu.


- Bom, se isso te deixa feliz...


- Eu saio às 6 da tarde, podes-me vir buscar.


- Eu poder podia, mas onde?


- Podíamos combinar no Colombo.


- No Colombo?


Porra se há sitio que não suporto é esse miserável centro comercial, antes preferia na porta de embarque do aeroporto, tenho tido experiências horríveis lá, andar à volta naqueles corredores faz-me sentir uma grávida nos primeiros meses, fico extremamente enjoado e mastigo algumas das folhas de plástico que adornam aquela coisa, logo eu que tinha prometido nunca mais lá ir depois de ter sido assaltado pela 3ª vez no mesmo dia pela mesma pessoa.


- Bem, sempre podemos ir ao Tavares Rico, agora tem nova gerência e já ninguém há muito tempo apanha nenhuma intoxicação alimentar.


- Não, deixa, o Colombo está óptimo. Mas como é que te vou reconhecer?


- Levo umas calças de ganga e uma t-shirt branca.


- !!??


- Estava a brincar contigo, trago também óculos escuros.


- Por momentos assustaste-me, já me estava ver fazer figura de parvo à tua procura.


Que excitação, vou ter pela primeira vez na vida um Blind Date, para quem tem dificuldades com o espanhol eu explico, é um encontro às cegas, o que só por si pressupõe que nos apalpemos mutuamente antes mesmo de trocar qualquer palavra. Estou emocionado e ansioso e quando assim fico tenho os meus achaques e desmaios, a minha sorte foi ter caído em cima de uma couve lombarda.


(continua)

publicado por gifted_children às 22:19
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