Sábado, 1 de Maio de 2004

A minha namorada - tentativas

Como sempre os dias cada vez custam mais a passar, e se não fosse o Sol que de vez em quando aparecer e a Fashion TV a minha vida era um autêntico marasmo. Já tentei de tudo, mas nada parece resultar. Os meus encontros não têm corrido bem, os empregos é o que se sabe, e fico por vezes a pensar “será que nasci para ficar sozinho?.” “Será que não há neste mundo alguém que além de ti que quisesse ficar comigo?” “ Porque é que as senhoras do anúncios dos detergentes deixam sempre a casa chegar a um ponto que se vê uma diferença tão grande depois da casa estar limpa?.” “E já agora queria mas é saber como é que cabem 10 milhões de L. Casei Imunitass dentro de um frasco tão pequeno, alguém devia obrigá-los a contar um por um. Para mim caberão uns 10 no máximo.” São pensamentos recorrentes que me têm atormentado nestes dias.


Solução final: procurar ex-namoradas antigas. Há sempre coisas para dizer, recordar o passado, rir que nem um louco com situações que já não me lembro mas que finjo que sim, apesar que a maioria delas não ter vontade nenhuma de as ver, mas a vida também não está para grandes esquisitices, e como todo o homem que viveu antes da era dos telemóveis tem um caderninho com os telefones guardados na caixinha das recordações, e como tenho visto em várias situações em que de facto este método de telefonar às ex resulta, porque não eu ter a mesma sorte.


Claro que o mais difícil é começar. Que critérios utilizar?. Aquelas que foram mais importantes não são um bom princípio, conhecem-nos demasiado bem e recusariam na hora com desculpas parvas como terem um unha do pé encravada e só poderem deslocar-se ao pé-coxinho parecendo flamingos. Aquelas que correram comigo também não, se já na altura não me aguentavam, o que seria diferente agora?. (Um facto é que a idade só me tem feito bem). Talvez o melhor fosse procurar aquelas que nunca chegaram a ser importantes, mas que no mínimo sabia a marca de roupa interior preferida.


Lá vasculhei as minhas coisinhas e dei com o caderno já comido pelas traças. Tentei visualizar o rosto de cada uma delas mas só conseguia ver a tua cara o que me assustou um bocadinho. Não tinha nada a perder por isso lá escolhi uma. Claro que as duvidas eram muitas. Estaria casada? Teria filhos? Seria maníaco-depressiva? Teria um auricular no telemóvel? Ganhei coragem e marquei o número.


-Sim


De imediato reconheci-lhe a voz, já que tinha pretensões a cantora de ópera e falava com as pessoas em canto gregoriano, o que era um bocadinho apetetado, mas na altura até achava graça, apesar de ter sido várias vezes intimada a comparecer em tribunal por perturbação da paz pública.


- Olá… sou eu, lembras-te?


- Não, quem fala?


- Não te lembras, namoramos no 10º ano.


- Não estou a ver, foram tantos…


- Bom, foi aquele que te levou um dia ao zoo e te lançou no poço dos leões, lembras-te como rimos na altura?


- Ah, lembro-me, mas o único a rir foste tu seu idiota, eu só queria fugir dali.


- Pois… então podemos rir agora que já passou tanto tempo. Foi uma aventura e tanto.


- Continuo a não achar graça nenhuma.


- Eu juraria que enquanto corrias em frente aos bichos rias desalmadamente.


- Não ria, chorava convulsivamente de medo.


- Olha que me enganaste muito bem, parecias tão divertida, pois começaste a cantar para os leõezinhos que ele foram para a toca e há quem diga que eles de lá nunca mais saíram. Tinhas um jeito especial para a bicharada.


- E que queres tu agora? Desde esse dia nunca mais te vi.


Acho muito feio as pessoas guardarem rancor por coisinhas de nada, principalmente depois de ter passado tanto tempo. Eu como não sou nada assim fico sempre triste quando as pessoas não têm o mínimo de sentido de humor.


- Queria saber como estás, se queres ir sair, ir ao cinema, andar de carrinhos de choque… essas coisas assim, divertirmo-nos um pouco… podes?


- Poder até posso, mas tenho medo…


- Eu sei, às vezes depois de tanto tempo os sentimentos desabrocham, eu compreendo, já não nos vemos há tanto tempo que tens medo de voltar a sentir a chama da paixão. Deixa que eu não deixo que isso aconteça.


- Não, eu tenho medo é de sair contigo e me aconteça alguma coisa.


- Isso quer dizer o quê?


- Quer dizer… adeuzinho.

publicado por gifted_children às 20:42
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