Domingo, 16 de Maio de 2004

A minha Namorada - a sorte continua?!

(continuação)


Guiou-me até ao café onde nos sentámos para conversar, mergulhei a cabeça no copo de água para ver se me passava o ardor nos olhos, mas só consegui pôr o nariz o que me fez espirrar continuadamente durante dez minutos.


- Então, diz-me, meu querido, quer dizer que tiveste saudades minhas, nunca imaginei… é que passaram tantos anos.


- É para veres como são as coisas, acho que realmente nunca te esqueci e que nunca saíste do pensamento durante estes anos todos. Mesmo quando estava contente, sentia que algo me faltava, muitas vezes era dinheiro, outras devias ser tu.


- É que senti que quando me vendeste em Marrocos que não gostavas assim tanto de mim, estou a ver que me enganei. És tão querido. Claro que me custou um bocadinho a atravessar para Espanha com mais vinte pessoas num caiaque… mas hoje não deixo de olhar para trás e achar graça.


- Pois… ainda bem que te divertiste.


- Claro que tive de trabalhar seis meses a apanhar morangos para arranjar dinheiro para voltar para casa, mas tirei uma grande lição de vida.


- Foi, e que lição foi essa?


- Devia ter ido para a apanha da maçã, não sabia que os morangos cresciam tão em baixo... dores nas costas são do pior.


- É um facto, estamos sempre a aprender…


Já estava a começar a vislumbrar qualquer coisa. Já conseguia ver aquela expressão doce, aquele sorriso complacente (ainda que tudo a preto e branco). Era de facto linda, a idade tinha-lhe dado um encanto e uma serenidade que me deixaram todo arrepiado, principalmente quando ela pegou na minha mão (ainda que fosse para colocá-la na bica, já que estava a beber o cinzeiro), mas tinha umas mãos de veludo e a cada toque eriçavam-se-me os pêlos dos pés.


- É tão bom ver-te de novo…


- Para mim também seria, mas a verdade é que não consigo ver lá grande coisa.


- E diz-me, não tiveste ninguém mais especial durante todo este tempo?


A minha sorte é ter a capacidade inata que tem qualquer homem de acreditar naquilo que diz e tomar isso como verdade absoluta.


- Não…não… depois de ti nunca mais houve ninguém que me fizesse sentir aquilo que sentia por ti, nem de perto nem de longe. Foste demasiado especial para mim. Para mim eras o ar que respirava, o Sol que me alumiava, a laranja da vodka… depois de ti o tempo parou, o céu deixou de ter estrelas, apareceram restaurantes chineses em todo o lado… enfim, nada mais foi igual.


- Queres fazer sexo?


- Desculpa??!?!?


- Continuas sem ver nada?


- Basicamente… quer dizer… aquela rapariga ao balcão é gira?


- É a máquina do tabaco.


- Então continuo sem ver nada.


- É que… sabes… como dizem que como quem não vê os outros sentidos aumentam… percebes? Mas tem de ser já, senão voltas a ver normalmente e deixa de ter graça.


- Aaaaaa… está bem… estou nessa, não vejo nadinha de nada, dá-me um murro para ver se me desvio. (Porra, era retórica agora tenho o nariz a sangrar.)


- Vamos no teu carro ou no meu?.. AhAh, era uma piada, sou mesmo divertida.


 (continua)

publicado por gifted_children às 22:33
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