Segunda-feira, 5 de Julho de 2004

A minha namorada - telefonei-lhe3

(continuação)


Foi de facto maravilhoso quando atendi o telefone e senti toda uma força (eu sei que esta da força já deu o que tinha a dar) de toda a gente naqueles gabinetes circunspectos que estavam em grande expectativa para saber o que iria sair desta garganta de rouxinol.


Pediram-me várias canções, as quais as cantei com grande afã. Houve uma altura em que disse que não cantaria mais, e todos ficaram tristes e cabisbaixos, mas depois fiz uma imitação do Marcel Marceau que os deixou de novo extasiados e aplaudiram-me em apoteose, foi bonito, mas o meu interesse era falar com aquela rapariga.


- De facto és um artista... cantas tão bem que até tenho a penugem na barriga arrepiada.


- Ora, ora, ora...acho que foste tu que me inspiraste, normalmente canto tão bem como o Melão, mas depois de ouvir a tua doce voz, senti-me como se tivesse encarnado o Frank Sinatra.


- Se houvesse aqui alguém que me cantasse assim ao ouvido era capaz de fazer cobranças o dia inteiro.


- E isso não seria irritante?


- O quê?


- Bem... estares a trabalhar e estares a ouvir alguém cantar ao ouvido, como é que ouvirias a outra pessoa? Se fosse comigo e alguém me cantasse ao ouvido batia-lhe com um clip.


- Tens razão.


- Bom... pensaste no nosso assuntuzinho?


- Do dinheiro?!, Ah, claro, é que tens a conta descoberto já lá vai para mais de um mês e...


- Pára, pára, pára... não falemos de coisas insignificantes, o que é o dinheiro ao pé do amor.


- Pois de facto tens razão, mas garanto-te que ninguém vem ao banco e diz “Amo-te muito, e além disso tens uma personalidade extraordinária” e as contas ficam pagas.


- Então e quando é que podemos ir sair para beber um café, jantar ou qualquer coisa do género.


- Pois, por aquilo que vejo quem paga a conta sou eu.


- Bom, se isso te deixa feliz...


- Eu saio às 6 da tarde, podes-me vir buscar.


- Eu poder podia, mas onde?


- Podíamos combinar no Colombo.


- No Colombo?


Porra se há sitio que não suporto é esse miserável centro comercial, antes preferia na porta de embarque do aeroporto, tenho tido experiências horríveis lá, andar à volta naqueles corredores faz-me sentir uma grávida nos primeiros meses, fico extremamente enjoado e mastigo algumas das folhas de plástico que adornam aquela coisa, logo eu que tinha prometido nunca mais lá ir depois de ter sido assaltado pela 3ª vez no mesmo dia pela mesma pessoa.


- Bem, sempre podemos ir ao Tavares Rico, agora tem nova gerência e já ninguém há muito tempo apanha nenhuma intoxicação alimentar.


- Não, deixa, o Colombo está óptimo. Mas como é que te vou reconhecer?


- Levo umas calças de ganga e uma t-shirt branca.


- !!??


- Estava a brincar contigo, trago também óculos escuros.


- Por momentos assustaste-me, já me estava ver fazer figura de parvo à tua procura.


Que excitação, vou ter pela primeira vez na vida um Blind Date, para quem tem dificuldades com o espanhol eu explico, é um encontro às cegas, o que só por si pressupõe que nos apalpemos mutuamente antes mesmo de trocar qualquer palavra. Estou emocionado e ansioso e quando assim fico tenho os meus achaques e desmaios, a minha sorte foi ter caído em cima de uma couve lombarda.


(continua)

publicado por gifted_children às 22:19
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2 comentários:
De Anónimo a 6 de Julho de 2004 às 20:25
realmente isto nao para de melhorar!!! o pormenor dos oculos de sol é que a via diferenciar!!! ehehe!rafapaim
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(mailto:filosofiabarata@sapo.pt)


De Anónimo a 6 de Julho de 2004 às 14:03
Este "non sense" está a ficar cada vez melhor.
Um abraço. Pareço um parvo a rir sózinho, a minha secretária deve pensar que fiquei maluco de vez, até já me pergunta se estou em condições de receber as chamadas antes de as passar...McClaymore
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(mailto:joaoamadeira@sapo.pt)


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