Segunda-feira, 13 de Setembro de 2004

A minha namorada - o retorno

Não há nada como um belo passeio no parque para limpar a cabeça, a outra hipótese é lavar com um bom champô e condicionador e secar a baixa temperatura. O cheiro da relva e das árvores davam-me a sensação de descanso e de paz que tanto precisava. A tristeza consumia-me e chorava num pranto de cada vez que via um casal de namorados, flores viçosas e contentores do lixo.


Quando vejo a minha ex-ex-namorada sentada debaixo de uma árvore com o seu namorado Quim. Pareciam-me tão felizes. Fiquei com uma certa nostalgia ao vê-los a repenicar beijos e vê-los a rir enquanto ele lhe fazia cócegas que logo passou quando no movimento a árvore lhes caiu em cima deixando-os muito melancólicos.


Fui para casa ver a minha colecção de filmes do Steven Seagal num dos seus extraordinários papéis, pois só assim me consigo abstrair de tudo, pois é dos poucos actores que só tem uma expressão, as outras dez são apenas uma mudança da localização das sobrancelhas. Eu admiro-o porque deve ser difícil para ele, tal como comigo, deixar transparecer emoções.


 Tocam à porta. Quem poderia ser a esta hora da noite? Eu sei que eram apenas nove da noite mas já estava a encarnar no Steven Seagal e não me mexi, esperando que quem quer que fosse acabasse por desistir. O que não aconteceu e já a vizinhança toda estava a gritar à minha porta quando por fim me decidi a abrir. Era a minha ex-namorada quem me apareceu à porta.


- Olá


- !?


- Sou eu... voltei!


Claro que adoptei a táctica do Steven e mantive a mesma expressão e o mesmo ar impenetrável e voltei a sentar-me carregando no play do meu velho VHS. Ainda bem que tenho esta colecção de grandes filmes, assim mantive o meu ar indiferente apesar do meu estômago estar a dar mais voltas que uma máquina de lavar roupa cheia de cuecas de presidiários.


- Não queres falar comigo? Voltei, depois de um dia naquele sítio apercebi-me o quanto te amo e que não posso viver sem ti, além disso tive cólicas renais horríveis.


Apetecia-me correr para ela, abraçá-la e beijá-la por 3 segundos que fosse, mas uma das coisas que aprendi com o Steven foi que nestas alturas deve-se apenas levantar ligeiramente a sobrancelha, dar um ar pesaroso como se carregasse o peso do mundo nas costas, suspirar e utilizar sempre o mesmo tom de voz.


- E agora... que estás à espera? Que passado este tempo todo podes voltar à minha vida e começar tudo de novo? Assim sem mais nem mesmo? Depois de tudo o que passei?


- Mas só se passaram 15 dias!


- Sim... mas a gasolina aumentou duas vezes...


Com esta esperava aniquilá-la de vez e deixá-la sem qualquer tipo de argumentação. Servi um copo de água com gelo e dei-lhe ao qual se agarrou e bebeu de um trago. Notei que as mãos lhe tremiam enquanto bebia.


- Acho que não aumentou...


- Talvez... mas podia.


- !? Podes-me dar mais um copo?


- Achas que deves? Tu sabes perfeitamente que te faz mal. E quando começas não consegues parar.


- Estou um pouco nervosa.


- Ok, mas só este e mais nenhum.


Desta vez juntei 3 pedras de gelo ao copo de água esperando eu que ela não sentisse a diferença e achasse que eu estava a ser paternalista. Acho que finalmente estava na posição que queria... por cima., tinha tomado o controlo da situação e sentia que agora ela comia na minha mão. Bendito Steven que me ensinou tanta coisa, olhei para ela com um misto de provocação e ironia, o que se faz levantando a sobrancelha mais dois milímetros.


- E o teu namorado chinês?


- Bem... a realidade é que acho que estava apenas fascinada pela sua coragem, humanidade e vontade de fazer tudo pelos outros... mas nunca o amei de verdade, agora o sei. Além disso tinha perdido o tronco quando pôs o corpo fora da janela do carro e passou um camião que lhe levou a cabeça. Depois disso nunca mais foi o mesmo, sentia-se inferiorizado por apenas ter a cabeça o que fazia que só cantasse música tirolesa.


- E os teus amigos?


- Os meus amigos juntaram-se a um grupo de ciganos romenos, onde estavam a encenar a peça Cats com focas amestradas.


A minha mente estava dividida, o que faria o Steven Seagal numa situação destas? Provavelmente já tinha dado dois golpes de aikido na gaja, fazendo o olhar nº 3 (arqueando a sobrancelha direita, mantendo a esquerda em absoluta contracção). Eu próprio bebi um copo de água, só que para mim... sem gelo, água pura e cristalina como eu gosto.


- Sabes miúda… não se deve brincar assim com os sentimentos das pessoas, a não ser que a brincadeira meta duas suecas à luta na lama.


- Eu sei que te magoei… como é que posso de alguma maneira compensar-te.


- Para vocês mulheres pensam que é tudo fácil. Basta virem insinuarem-se sexualmente que sabem que um homem não resiste. Vêem com os vossos encantos, sorriem provocatoriamente, deixam cair de propósito a alça do top esperando que vejamos um pouco de pele e ficarmos com o sangue a ferver. Mexem no cabelo despenteando-o e molhando os lábios com a língua. Eu conheço todos os truques. Mas eu não sou assim tão fácil.


- Eu não fiz nada disso.


- Pois não, pois não… é pena.


- Achas que ainda temos hipótese de tentar tudo de novo?


Nesta altura fiz mais uma expressão do Steven que só os entendidos conseguem perceber mas que demonstra uma grande carga dramática que só está ao alcance dos grandes actores. Franzi a testa mostrando apenas três rugas de expressão, afinal já tinha treinado várias vezes, mas acho que desta me correu particularmente bem.


- Deixa-me pensar… ainda estou a tentar apanhar os pedaços de coração que friamente partiste quando te foste embora.


- Vou-me embora então… quando quiseres sabes onde me encontrar. O meu número está na lista.


- Porque achas que ía me dar ao trabalho de procurar o teu número na lista telefónica.


- Está na lista dos teus números de telemóvel.


- Bom, assim torna as coisas mais fáceis. Adeus miúda…


Sentei-me e bebi mais um copo de água, desta vez duplo. Será que fiz bem em tê-la deixado ir embora assim, quando a minha vontade era que ficasse e nunca mais se fosse embora. Esta história dos filmes em que não se fica com a miúda no fim e ficamos com um ar miseravelmente infeliz não combina comigo.


- Queridaaaaaaaaaaaaaaaaa…

publicado por gifted_children às 21:57
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3 comentários:
De Anónimo a 20 de Setembro de 2004 às 00:53
que imaginação!!!cupulabandonada
(http://noufeminino.blogspot.com)
(mailto:cb@sapo.pt)


De Anónimo a 15 de Setembro de 2004 às 19:14
Comecei logo a rir na primeira frase... HAHAHAHAHA... Essa do champô é linda! HAHAHHAHAHA

Bjos grandes**** PS - Boa sorte! lolFormiguinha
(http://formiguinha.blogs.sapo.pt)
(mailto:blog_formiguinha@sapo.pt)


De Anónimo a 13 de Setembro de 2004 às 22:43
Isso mesmo .. quando se quer temos de correr atras!!! rafapaim
</a>
(mailto:filosofiabarata@sapo.pt)


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